Para explicar a convulsão no Egito

Explicar os factuais a ponto de contextualizar e esclarecer a origem dos acontecimentos é um desafio na web. Muitos sites não internalizaram  o recurso de memória tão rico à internet e ao jornalismo. O site explainer.net anda fazendo um trabalho de vigilância na operação online dos noticiosos em inglês. Neste mês, eles analisaram o quanto as coberturas do Egito estão preocupadas em situar os novos leitores, além de noticiar os fatos do dia.

O site usou como amostra as coberturas dos seguintes onliners: Al Jazeera, Los Angeles Times, Huffington Post, Mother Jones, Salon, National Journal.

Dos analisados, eu apontaria como a melhor leitura gráfica da notícia o National Journal. O site conseguiu organizar a informação em mapa, dar uma contextualização regional mais ampla do que acontece no Egito e explorar a linguagem gráfica de forma simples e intuitiva. Apesar disso, faltou informações em profundidade que poderiam estar em hiperlinks para outros textos.

O LA Times também soube explorar a linguagem interativa com uma representação gráfica e organizada dos fatos. O leitor é conduzido por abas para informações sobre a revolução, as reações, o destino de Mubarak e ainda tem a possibilidade de navegar em um agregador de últimas notícias.

O Mother Jones fez uma leitura guiada do que aconteceu no Egito em um bloco de texto. Em formato de perguntas e respostas, repleto de hiperlinks, o compilado de informações “guia” o leitor pela história, pelo ponto nevrálgico do conflito, pela influência da Tunísia, pelos factuais desde o início da cobertura e ensina como acompanhar os acontecimentos em tempo real nas mídias sociais. O site poderia ter explorado melhor a apresentação não linear desse conteúdo. Uma alternativa simples seria uma linha do tempo do conflito.

Já a melhor organização dos conteúdos foi feita pelo Huffington Post. É apenas uma página, organizada em colunagem mista de 2, 3 e 4 blocos de informação. A página traz a linha do tempo, perguntas e respostas, quem é quem?, fotos, vídeos, contexto e muitos hiperlinks para outros sites.

Seria melhor ainda se o Huff Post tivesse mapeado o conflito. Como não o fez, linkou para o mapa da BBC. A página trabalha com geolocalização das notícias, divisão dos fatos por semanas, links para a notícia dia a dia (página de narração dos acontecimentos) e textos de análise.

Me ajude a investigar

O jornalista britânico Paul Bradshaw criou uma ferramenta independente de jornalismo colaborativo. HelpMeInvestigate é um site simples no qual os usuários fazem provocações ou questionam situações da vida cotidiana e pedem ajuda para resolver.

Os “detetives” do site devem ter um perfil e aceitar o desafio de investigar o assunto. Os questionamentos resultaram em centenas de reportagens construídas a partir da sugestão e apuração dos leitores e dos mediadores.

A lógica é parecida com o Yahoo! Respostas, mas direcionado para a comunidade local de Birmingham, na Inglaterra. Para Bradshaw, esse modelo quebra o tabu de que uma grande reportagem precisa necessariamente ser secreta:

“Journalistas pensam que o jornalismo investigativo deve ser secreto, mas  [HelpMeInvestigate] deve ser visto como propriedade tanto da comunidade quanto dos jornalistas. As pessoas podem contribuir com seu conhecimento sobre determinado assunto e jornalistas sem nenhum recurso pode usar essa ferramenta para pedir ajuda. ”

Outros modelos parecidos de jornalismo colaborativo são FixMyStreet e o TheyWorkForYou, ambos na Inglaterra.

Leia mais sobre o assunto no The Guardian

A economia das redes sociais

Porto Alegre vai receber na semana que vem o autor do livro Socialnomics, Erik Qualman (@equalman). Ele vai participar do XI Fórum de Internet Coporativa que neste ano vai abordar os novos hábitos de consumo das classes populares, na esteira do crescimento do acesso à internet e da presença cada vez maior dos diferentes públicos em redes sociais.

Qualman mostra que as redes sociais alteram o mundo dos negócios e que a reciclagem e transformação dos negócios passa pelo conhecimento da nova realidade. O vídeo abaixo mostra um pouco do que o autor prega nas suas palestras e no seu livro.

O original do vídeo foi produzido em inglês e a versão em português abaixo possui pequenos erros de tradução e gramática.

Principais tendências do jornalismo

Visão geral – Projeto de Excelência em Jornalismo

Nos últimos anos tentamos identificar as principais tendências emergentes para os próximos anos, e muitos das quais ainda se aplicam hoje. Para 2010, queremos enfatizar seis pontos.

Economia da web e a notícia – Porque nós aprendemos mais sobre a economia da Web e comportamento do consumidor, a separação da notícia parece cada vez mais central para o futuro do jornalismo. Pegar o velho modelo de jornalismo das organizações noticiosas, tendo as receitas de uma operação social – a venda de imóveis, automóveis e produtos de mercearia ou caça de trabalho, por exemplo, – e usá-lo para acompanhar a vida cívica – que abrange coberturas do poder público e condução de reportagens investigativas.

Editores reúnem uma vasta gama de notícias, mas a popularidade de cada história era subordinado ao seu valor, e à audiência global, do todo. E o valor da história pode ser encontrada em sua conseqüência e repercussão e não a sua popularidade. Esse modelo está quebrando.

No online, é cada vez mais evidente, os consumidores não estão procurando novas organizações para a sua agenda de notícias. Eles estão caçando as notícias por assunto e por eventos de várias fontes. Isso está mudando as finanças e a cultura das redações. Quando o ganho econômico está intimamente ligado à cada história, qual é a justificativa para cobertura de jornalismo cidadão que traz repercussão, mas tem um interesse limitado?

Os dados também estão começando a mostrar uma mudança de interesse no noticiário local em direção a temas mais nacionais e internacionais, as pessoas têm mais acesso a essa informação, que pode ter outros efeitos sobre a dinâmica local.

O futuro de novas e velhas mídias são mais amarrados do que alguns podem pensar. Um novo estudo universitário divulgado em relatório constata que mesmo os melhores sites de novos meios de comunicação no país ainda têm capacidade limitada de produzir conteúdo. Sem dúvida, eles vão evoluir. No entanto, sua capacidade jornalística, em última análise, ainda dependerá de encontrar um modelo de receita muito maior do que o que existe hoje, ou que se prevê vir de publicidade on-line convencional. Embora existam alguns valores concorrentes e diferentes culturas jornalísticas, no final, novas e velhas mídias enfrentam o mesmo dilema e pode ser muito mais alinhados na busca de receitas do que muitos pensaram. Em alguns casos, haverá alianças formais ou de redes de meios novos e antigos.

Um conceito que vai receber mais atenção é colaborações da velha mídia e dos cidadãos no que alguns chamam de um “pro-am” (profissional e amador) modelo para a notícia. Contudo, as organizações de notícias tradicionais precisam aprender como lidar com essas parcerias, as regras para o que é aceitável e o que não é, permanecem largamente desconhecidas.

A noção de que os meios de comunicação estão diminuindo está equivocada. Jornalismo de reportagem está ficando menor, mas o comentário e aspecto de discussão da mídia, que acrescenta a análise, a paixão e a construção de uma agenda pública, está crescendo – no cabo, rádio, mídia social, blogs e outros lugares. Para toda a atividade robusta lá, no entanto, os números sugerem ainda que esses novos meios de comunicação são amplamente preenchidos com debate provenientes da erosão da base da informação que começou nos meios de comunicação antigos.

Nossa análise em curso de mais de um milhão de blogs e sites de mídia social, por exemplo, constata que 80% dos links são para a “mídia” tradicional dos EUA. O único setor da mídia com números de audiência crescente é o cabo, um lugar onde a parte do leão dos recursos são gastos em máquinas de opinião. Dados das pesquisas mostram que 72% dos americanos sentem agora que a maioria das fontes de notícias são tendenciosas em coberturas e 70% se sentem bombardeados com notícias e pouco informados sobre o que leem. Quantitativamente, o desafio é argumentação em vez de expansão do leque.

Tecnologia está mudando o “poder” dos jornalistas, e a forma mais recente delas é através do domínio da “initial accounts” (primeiras informações). Pelo menos por enquanto, a tecnologia digital está dando mais ênfase e recursos para as últimas notícias. Redações encolhidas estão requisitando ao seu pessoal mais tempo para dar as primeiras notícias com mais rapidez e para múltiplas plataformas. Isso concentra mais tempo na divulgação de informações e menos na apuração, tornando os jornalistas mais reativos e menos pró-ativos. Há também um fenômeno em que as primeiras notas de jornalistas – seus releases e comunicados de imprensa – fazem um caminho direto para o público, sem filtro, às vezes, textualmente. Essas primeiras notas, escritas por fontes oficiais, em seguida, podem se espalhar rapidamente de forma mais ampla agora, através do poder da Internet para disseminar, ganhando uma velocidade que antes não tinha. Isso é seguido rapidamente por comentários na web. O que é suprimido é a informação complementar e de contexto sobre os eventos. Nós vimos isso claramente em um estudo da notícia, em Baltimore, mas a percepção é reforçada em discussões com jornalistas.

A produção de notícias de interesse próprio cresce rapidamente e as organizações de notícias deve definir sua relação com ela. As redações ficam menores, o leque de não-jornalistas que inserem as informações e notícias está crescendo rapidamente. Empresas, grupos de reflexão, ativistas, governo e políticos. Algumas instituições estão frustradas com a redução do espaço na mídia convencional e da ausência de especialistas para cobrir determinada área do conhecimento. Outros são partidários têm interesses políticos a fim de explorar uma oportunidade de contraponto ao jornalismo. Há vários graus de transparência nesses esforços sobre o financiamento e intenções. Alguns são bem claras. Outros apresentam-se como puramente jornalístico e independentes, quando na verdade eles são financiados por ativistas políticos, aprofundando o olhar nos conteúdos  pode-se fazer referência à agenda e ao financiamento. Em uma época onde a vinculação e agregados fazem parte do jornalismo, novas organizações devem decidir como querem interagir com este grupo crescente de produtores de informação com interesses. Será que vão pegar esse material e divulgá-las? Eles podem, eventualmente, a policiá-los? Eles podem se dar ao luxo de ignorá-lo? A única certeza é que estes novos jogadores estão cada vez mais disputando o público e a atenção da mídia, e seus recursos, ao contrário do  jornalismo  tradicionais, estão crescendo.

Quando se trata de números de audiência online, conteúdo damídia tradicional ainda prevalece, o que significa que os cortes na velha mídia impactam no que o público está aprendendo através das notícias. Uma análise no relatório deste ano do comportamento da audiência online, extrapolada a partir de dados da Nielsen Net Ratings, constata que 80% do tráfego para sites de notícias e informação é concentrada nos 7% de top sites. A grande maioria dos sites de notícias de topo (67%), aliás, ainda estão vinculados aos meios de comunicação tradicionais, financiados em grande parte pelos cortes no próprio negócio.1 Novos meios de comunicação estão crescendo, mas a suas posições nos ranking de audiência ainda são ainda pequenas. Outros 13% destes sites são os agregadores de notícias, cujo conteúdo é derivado das mídias tradicionais. Apenas 14% destes sites são operações somente  de conteúdo original. Em suma, os cortes na velha mídia estão afetando drasticamente a mídia não só tradicional, mas tem um impacto no conteúdo online também.