Sete características do webjornalismo

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O livro do português João Canavilhas nasce um clássico. O professor da Universidade Beira Interior formou uma rede de sete teóricos do webjornalismo para reunir capítulos definitivos sobre as principais características do suporte internet para o jornalismo.

O professor incluiu entre os autores o brasileiro Marcio Palácios (UFBA) para discorrer sobre memória na web e o britânico Paul Bradshaw para falar sobre a instantaneidade. A agradável surpresa se chama Alejandro Rost, teórico argentino. Ele escreveu o capítulo sobre interatividade com riqueza histórica e conceitual. Também publicaram textos John Pavlik (ubiquidade), Ramon Salaverría (multimidialidade), Mirko Lorenz (personalização).

A obra foi publicada para download gratuito em dezembro de 2014.

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Cinco motivos para acreditar em um futuro melhor para o jornalismo

Dominique Delport é CEO do Havas Media. O cara comanda uma das maiores empresas de tendência de mercado de comunicação digital e mídia. Ele não acredita que os jornais estão mortos. Ele espera em uma mudança profunda no modelo de negócio do jornalismo. E o primeiro item na cartilha de sobrevivência é conteúdo de qualidade.  E lista os cinco motivos para enxergar um futuro melhor. Vou listar bem resumidinho, mas tu pode acessar a apresentação dele lá no final para ler a íntegra em inglês.

1- Crescimento da classe média global: destaque para a classe média da China e da África. A América Latina e Central figuram na expectativa de aumento de poder de consumo.

2- Mobile first: o celular passará a ser a primeira tela em breve e a TV será segunda tela, seguida de tablet e laptop. Ele apresenta um curioso gráfico do buzzfeed sobre a redução da dependência do Google e aumento da relevância do Facebook. Também cita o relatório de inovação do NYT para ressaltar a transição digital.

3 – Mais popular: neste item sugere que se crie segmentação de conteúdos seguindo o conceito de “novelas”, ou sejam sequência de assuntos ou temas, sugere histórias em vídeo, criar jornalistas que são “marcas” – identificados com conteúdos, valorize leitores e crie eventos

4 – Dados e mais dados: sugere investimentos em jornalismo de dados, visualização de dados, segmentação por meio de dados

5 – inovação e agilidade: inovar para simplificar a leitura e ampliar a instantaneidade das publicações. Personalize e socialize o seu conteúdo. E tenha em mente que o jornal é UTIL.

Relatório interno de inovação do NYT vaza na internet

Um documento interno de 96 páginas mostra a preocupação do The New York Times com a concorrência dos veículos digitais, como Huffington Post, Business Insider e BuzzFeed. O jornal admite falha na batalha digital. Um dos pontos ressaltados é a dificuldade de mudança cultural em um ambiente no qual a redação ainda privilegia a Primeira Página do jornal impresso. O documento é um síntese da crise que a indústria de mídia vive na transição entre um modelo de negócio linear para um modelo descentralizado, baseado em muitas frentes.

Leia a íntegra: 

Innovation report 2014NYT Innovation Report 2014

O relatório lista recomendações para fortalecer o jornal na ‘era digital’ como analisar cenários com calma para traçar caminhos e usar experiências anteriores e dados para tomar decisões. Mas em dois pontos o texto foi bastante enfático, na necessidade de captação de talentos digitais e de focar em experiência do leitor. Há dois alentos para quem torce pelo bastião do jornalismo mundial: o sucesso no paywall permite estabilidade financeira para investir no digital e todas as pessoas ouvidas enfatizam os valores jornalísticos e a integridade que fazem do Times a maior instituição jornalística no mundo.

“Mas temos de evoluir, e rapidamente, para manter o status nas próximas décadas.”

O relatório traz sugestões de práticas que mudam a configuração da redação e aproximam a produção de conteúdo de áreas estratégicas como tecnologia, design, experiência do usuário, marketing, comercial e pesquisa. E, no final, eles admitem que produtos digitais, como o app Scoop e a homepage internacional, falharam em engajar os leitores. Outros links para o mesmo assunto: Jornal admite que está ficando para trás Report is one of the key documents of this media age

Não vale a pena substituir um bom jornalismo

Gosto dos dias de provocação como hoje: nos fazem pensar, refletir e aprender. Depois de uma discussão sobre leads em textos jornalísticos na Redação, voltei aos meus livros para revisar a origem dessa técnica de redação e reportagem. Um dos clássicos que estudei no tempo da graduação na Famecos-PUC é o livro do Adelmo Genro Filho, O Segredo da Pirâmide. (hoje em ebook!)

No capítulo IX, Adelmo discorre sobre o uso da narrativa singular e particular para reportar um fato ou recorte da realidade e põe em discussão a objetividade jornalística. Teoria marxista  e regras textuais inflexíveis à parte, Adelmo reforça que o lead e a pirâmide invertida objetivam  “ilustrar que a notícia caminha do mais importante para o menos importante”.

No trecho final do capítulo, a discussão da relação entre jornalismo, literatura e arte nos faz refletir sobre a tentativa muitas vezes frustrada de levar ao leitor a emoção e a vivência do personagem. Para a prática do new journalism ou jornalismo literário é preciso mais do que a técnica de apuração e redação, é necessário talento literário.

Na dúvida, siga a orientação do Adelmo: “Quanto ao jornalismo literário, as boas exceções confirmam a regra: não vale a pena substituir um bom jornalismo por má literatura.” (pp. 183-202)

Leia o livro na íntegra aqui.

LEAD:
O lead é uma técnica de reportagem que responde a 6 ou 9 perguntas (depende do autor). As seis perguntas clássicas são quem, fez o quê, quando, onde, como e por quê .  Já o professor João de Deus defende nove:  Quem fez? O quê? A quem? Quando? Por quê? Para quê? Onde? Como? Com que desdobramentos?
PIRÂMIDE INVERTIDA:
Já a pirâmide invertida é técnica de texto que coloca o mais importante primeiro, ou seja, na base da pirâmide de cabeça para baixo. O que está no cume ou em último no texto é o conteúdo que poderia ser cortado sem prejuízo para o entendimento do leitor.

Não jogue uma pá de conteúdos na web

Shovel significa pá, ware um artigo ou produto. As duas palavras unidas podem significar no jargão da computação um software válido mais pela quantidade do que pela qualidade ou facilidade de uso. Aprendi no livro “Como escrever para a web” do Guillermo Franco que nos EUA a expressão é também usada nas redações online.

A dificuldade de pensar conteúdos para a web faz com que os jornalistas, 15 anos depois da popularização da web, ainda transponham conteúdos do papel direto para a internet. Em 1995, quando os primeiros jornais brasileiros publicaram seus conteúdos na internet ainda não se tinha a noção de tempo real. O Jornal do Brasil foi o pioneiro em cobertura online, com atualização de conteúdos ao longo do dia.

Mesmo com a noção de 24/7 (24 horas, sete dias por semana) internalizada nas redações, a linguagem usada por muitos sites de notícias ainda é a do impresso, vide o nytimes.com com textos lineares de duas, três e até cinco páginas. Por isso, começo aqui a campanha abaixo à “pá de conteúdos”

“Em inglês, inclusive, cunhou-se o termo ‘shovelware’ para descrever
o conteúdo (que inunda a rede) pego de qualquer fonte e posto na Web sem levar em conta sua aparência ou usabilidade (‘shovelware’ deriva da palavra ‘pá’ em inglês, designando o movimento do material de um lugar a outro, sem valor agregado).” pg 21

Leia Como escrever para a web na versão ebook

Gomorra: uma grande reportagem

Com uma apuração profunda, o repórter Roberto Saviano descreve em Gomorra detalhes do inferno no qual se transformou a cidade italiana de Nápoles, a partir do movimento do porto napolitano. O livro é um exemplar da literatura de não-ficção. O autor mergulhou na sua cidade natal e gravou com os olhos e o coração o ciclo do “Sistema” da Camorra, a máfia napolitana, um verdadeiro mundo de negócios onde a lei é a da força bruta e armada.

A narrativa desta grande reportagem é uma prova de coragem do autor que chega a beirar um certo idealismo jornalístico. No prefácio do texto, Saviano confessa que vive ameaçado de morte, fortemente protegido pelo Estado italiano.

O autor traduz em palavras o suor, o sangue, o medo, o cheiro do universo que descreve. O olhar do repórter  enxerga em detalhes o porto napolitano, sua importância estratégica para o comércio, os negócios dos tecidos e o papel dos chineses. Em uma conversa com um dos personagens desta história real, Saviano desmascara a alta-costura e mostra quem são os reais talentos que vestem celebridades como Angelina Jolie. O “sistema” nos faz entender por que as grifes pouco se colocam contra os clãs da máfia. Elas se alimentam da mão de obra barata e pagam o preço alto da falsificação. Ao fim e ao cabo, promoviam a marca.

“Os clãs não cometiam um crime que atentasse contra as imagens das grifes. Exploravam seu carisma publicitário e simbólico… Se ninguém mais vestir roupas de grife, se as roupas forem vistas somentes nas modelos das passarelas, o mercado diminuirá lentamente e o prestígio enfraquecerá” Páginas 57 e 58

Na segunda parte do livro, Saviano explora a penetração da máfia na construção civil e mostra o quão cruel era o “sistema” com os seus membros. Neste cenário, a fidelidade absoluta é a única lei, não há espaço para opiniões contrárias, questionamentos ou arrependimentos. A punição também é única: a morte. Dependendo da traição uma morte com ou sem sofrimento, descritas com riquezas de detalhes nas páginas de Gomorra.

O trocadilho do título do livro é explicado no trecho dedicado a Dom Peppino, o religioso que ousou questionar a máfia, não para vencê-la, mas para compreendê-la. “Sua palavra, incapaz do silêncio, foi sua condenação à morte” (página 266). Um amigo do padre no discurso de despedida destacou um conto da Bíblia sobre a cidade destruída por Deus por prática de atos imorais:

” Não vedes que esta terra é Gomorra, não vedes? Quando virdes, todo o seu solo será enxofre, sal e aridez e não haverá mais semente, nem produto, nem erva que nele cresça”

Os últimos capítulos mostram a influência do cinema de Hollywood nas atitudes dos “boss” e dos jovens que almejam crescer, ganhar dinheiro e morrer como homens, assassinados. Inspirações estão em Scarface, O Poderoso Chefão, O Corvo, Kill Bill e Pulp Fiction. Na Camorra de Saviano, a vida imita a arte do poder e da morte.

Inspiração

Há jornalistas que possuem um talento enorme para inspirar seus leitores. Eliane Brum, autora de Olho da Rua, é uma destas autoras que abrem horizontes com seus textos. Abaixo um texto para ser lido e exercitado por jornalistas:

“Escutar é também não interromper as pessoas quando elas não falam na velocidade que a gente gostaria ou com a clareza que a gente desejaria e, principalmente, quando elas não dizem o que a gente pensava que diriam. Escutar é não induzir as pessoas a dizer o que gostaríamos que dissessem. A reportagem fica sempre melhor quando somos surpreendidos, quando ouvimos algo que não planejávamos. Escutar é esperar o tempo que cada um tem de falar – e de silenciar. Como repórter e como gente eu sempre achei que melhor do que saber perguntar é saber ouvir a resposta. ”

Leitura online em Google Books. Aproveite!