Cinco motivos para acreditar em um futuro melhor para o jornalismo

Dominique Delport é CEO do Havas Media. O cara comanda uma das maiores empresas de tendência de mercado de comunicação digital e mídia. Ele não acredita que os jornais estão mortos. Ele espera em uma mudança profunda no modelo de negócio do jornalismo. E o primeiro item na cartilha de sobrevivência é conteúdo de qualidade.  E lista os cinco motivos para enxergar um futuro melhor. Vou listar bem resumidinho, mas tu pode acessar a apresentação dele lá no final para ler a íntegra em inglês.

1- Crescimento da classe média global: destaque para a classe média da China e da África. A América Latina e Central figuram na expectativa de aumento de poder de consumo.

2- Mobile first: o celular passará a ser a primeira tela em breve e a TV será segunda tela, seguida de tablet e laptop. Ele apresenta um curioso gráfico do buzzfeed sobre a redução da dependência do Google e aumento da relevância do Facebook. Também cita o relatório de inovação do NYT para ressaltar a transição digital.

3 – Mais popular: neste item sugere que se crie segmentação de conteúdos seguindo o conceito de “novelas”, ou sejam sequência de assuntos ou temas, sugere histórias em vídeo, criar jornalistas que são “marcas” – identificados com conteúdos, valorize leitores e crie eventos

4 – Dados e mais dados: sugere investimentos em jornalismo de dados, visualização de dados, segmentação por meio de dados

5 – inovação e agilidade: inovar para simplificar a leitura e ampliar a instantaneidade das publicações. Personalize e socialize o seu conteúdo. E tenha em mente que o jornal é UTIL.

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Relatório interno de inovação do NYT vaza na internet

Um documento interno de 96 páginas mostra a preocupação do The New York Times com a concorrência dos veículos digitais, como Huffington Post, Business Insider e BuzzFeed. O jornal admite falha na batalha digital. Um dos pontos ressaltados é a dificuldade de mudança cultural em um ambiente no qual a redação ainda privilegia a Primeira Página do jornal impresso. O documento é um síntese da crise que a indústria de mídia vive na transição entre um modelo de negócio linear para um modelo descentralizado, baseado em muitas frentes.

Leia a íntegra: 

Innovation report 2014NYT Innovation Report 2014

O relatório lista recomendações para fortalecer o jornal na ‘era digital’ como analisar cenários com calma para traçar caminhos e usar experiências anteriores e dados para tomar decisões. Mas em dois pontos o texto foi bastante enfático, na necessidade de captação de talentos digitais e de focar em experiência do leitor. Há dois alentos para quem torce pelo bastião do jornalismo mundial: o sucesso no paywall permite estabilidade financeira para investir no digital e todas as pessoas ouvidas enfatizam os valores jornalísticos e a integridade que fazem do Times a maior instituição jornalística no mundo.

“Mas temos de evoluir, e rapidamente, para manter o status nas próximas décadas.”

O relatório traz sugestões de práticas que mudam a configuração da redação e aproximam a produção de conteúdo de áreas estratégicas como tecnologia, design, experiência do usuário, marketing, comercial e pesquisa. E, no final, eles admitem que produtos digitais, como o app Scoop e a homepage internacional, falharam em engajar os leitores. Outros links para o mesmo assunto: Jornal admite que está ficando para trás Report is one of the key documents of this media age

Jornalismo na esteira do sistema

Apesar de ser um filme sobre a violência da sociedade, corrupção policial e a promiscuidade de interesses políticos, Tropa de Elite 2 questiona também o papel e os limites do jornalismo.  Coadjuvante no roteiro, a jornalista Clara, interpretada por Tainá Muller, levanta dilemas da profissão de repórter. Ao questionar o “sistema”, o custo do furo de reportagem pode ser alto demais, a ser pago com a vida.  Difícil é discernir uma informação “plantada” por lobby ou relegada por “interesses de grupos” de uma de interesse público. Ainda mais se o jornalista estiver no papel de leão do circo, hora serve ao espetáculo, hora ameaça.

Uma entrevista “para jogar merda no ventilador”, quando Mathias (André Ramiro) decide criticar o governo do Estado pela situação de carnificina nos presídios do Rio de Janeiro, foi o primeiro texto publicado pela jornalista. Resultado: capitão Mathias acaba preso e fora do BOPE.

Quando Clara descobre, após entrevista com um delegado, os verdadeiros culpados pelo roubo de armas da polícia em um dos morros cariocas, o jornalismo é alçado a protagonista no roteiro de José Padilha. A investigação da repórter, com o auxílio de um deputado, desmascarava o esquema de milicianos (policiais corruptos), os verdadeiros substitutos dos traficantes no poder paralelo dos morros.

Corajosa, a jornalista descobre mais do que o necessário para ganhar capa do jornal e vira queima de arquivo, junto com seu fiel fotógrafo.  O deputado vai até o jornal e cobra a publicação da reportagem, mas ouve um estereotipado editor “vendido” dizer que não publicará porque tem “boas relações” com o governo.

Após uma gravação da escuta do telefone de Clara minutos antes de morrer ser divulgada pela Assembleia Legislativa, não há mais o que encobrir. O jornalismo, o Legislativo e o Capitão Nascimento expõem à sociedade a relação espúria entre polícia, governo e eleições.

Mesmo com o circo armado, a democracia brasileira reelege os governantes, atenua os crimes, relativiza as responsabilidades e a vida em sociedade prossegue sem sobressaltos até o próximo furo de reportagem “abalar o sistema”. O jornalismo resistirá.

Leia mais sobre Tropa de Elite 2 no site oficial

Sola de sapato como souvenir

* texto publicado na página Recortes de Viagem, no Caderno Viagem de Zero Hora

Carrego uma máxima na bagagem: quanto mais sola de sapato se gasta, mais a viagem é absorvida pelo turista. Por isso, o tênis é item obrigatório. Foi ele que me levou degrau a degrau até o alto da Torre Eiffel em Paris. Ao chegar ao Campo de Marte (Champ de Mars) e deparar com uma fila que fazia várias voltas para embarcar no elevador, a decisão de subir de escada foi imediata. Além de custar mais barato, a visita seria mais intensa.

À medida que avançava pela estrutura de ferro do século 19, sentia o vento e a liberdade de estar longe da terra firme. O cansaço e a ventania que enredava meus cabelos eram amenizados com a boa conversa da minha anfitriã, uma franco-brasileira que visita a torre como eu a Usina do Gasômetro.

Ao passo que ganhávamos altitude, íamos absorvendo drops de história. Uma série de cartazes relata em textos curtos a sorte de Gustave Eiffel, arquiteto vencedor do concurso internacional para a construção da torre em comemoração aos cem anos da Revolução Francesa, em 1889. E pensar que, seguido à risca o regulamento, a obra seria destruída 20 anos depois da construção. Só não foi porque a estrutura serviu de suporte para antenas de rádio e televisão.

Já no alto, o vislumbre da paisagem se impõe. Museu do Louvre, Catedral de Notre-Dame, Grand Palais, Petit Palais, Arco do Triunfo, Champs Elysées e obelisco podiam ser apreciados a olho nu. Aos curiosos, o mirante oferece novos contos para leitura. Entre as histórias ou lendas, um elefante que subiu ao primeiro piso, um equilibrista que cruzou o Sena a partir da torre e tantas outras pessoas que competiram na prova de subida em velocidade.

A Eiffel, símbolo de ousadia, atrai os corajosos que, como eu, gostam de ultrapassar limites. O meu foi vencer a subida e ser recompensada pela vivência. De lambuja, trouxe para casa como souvenir a sola do tênis que chega a estar deformada de tão gasta.

Por que Avatar não arrasou quarteirão

Grandes sucessos já não arrasam quarteirões. Avatar é um campeão de bilheteria, definitivamente está entre os hits do momento, mas ele não carregou a massa. Não como fez Titanic em 1997, quando foi o filme do ano. Dez em cada dez pessoas assistiram, gostaram e saíram cantando a trilha da Celine Dion do cinema.

Avatar é controverso. Está no topo, mas não é uma unanimidade. Na equação da cauda longa de Chris Anderson, o filme estaria no topo da linha decrescente, mas dividindo atenção com outros de interesse singular a pequenos grupos.

Essa é a mudança de comportamento que redireciona drasticamente a indústria do entretenimento e da mídia no mundo. Dificilmente se criará um novo Titanic. Passamos da era dos hits de massa para a época de massas de hits. Cada hit tem um público menor e, supostamente, mais engajado.

No dia-a-dia se percebe essa mudança de comportamento no cotidiano. As novelas da Globo influenciam, mas não homogeneizam preferências. Novas bandas surgem a cada dia no Brasil, mas você sabe dizer qual é grupo de maior sucesso do ano?

Anderson diz que a mudança vem da nova geração de jovens que se recusa a confiar em “figuras divinas” que lhes dizem o que é importante. Eles têm ao alcance informações e opções em abundância para tomar as próprias conclusões.

O último filme de Cameron tem o mérito de estar no hit “e” no nicho. Um filme da era da cauda longa que conquistou aqueles consumidores volúveis, que correm atrás do efêmero, e aqueles que buscam um sentido e aderem à causa.

Em bilheteria os dois filmes estão disputando ingresso a ingresso para entrar para a história. Mas por mais que os números se igualem ou sejam superados, a equação que mede o sucesso mudou.

Leitura recomendada:
A Cauda Longa
Chris Anderson
229 páginas

Por que ler Cultura da Convergência?

Primeiro os profissionais de comunicação se tornaram multimídia. Depois foram os veículos que se transformaram de múltiplas plataformas para uma plataforma múltipla. Em Cultura da Convergência, o professor do MIT, Henry Jenkins, descreve uma nova era em que a mudança deixa de ser tecnológica ou empresarial, para ser CULTURAL.

Esse processo começou com a vida digital descrita por Nicholas Negroponte em que o era reduzido a átomos se transformaria em bytes. A ideia de Negroponte era a de que a revolução digital era inevitável e imponente. Ithiel de Sola Pool, cientista político do MIT, considerado o profeta da convergência, enxergou um período de transição, que segundo Jenkins estamos vivendo agora.

“Estamos em uma era de transição midiática, marcada por decisões táticas e consequências inesperadas, sinais confusos e interesses conflitantes e, acima de tudo, resultados imprevisíveis”

De concreto o livro aponta algumas mudanças: tecnologias obsoletas, participação ativa do público, migração de conteúdo. Elas resultam em estratégias transmídias, que permeiam mais de um veículo de comunicação.

Fita cassete, disquete e vinil são tecnologias em desuso, mas os conteúdos que eram transmitidos por meio delas sobrevivem. O que alterou foi a tecnologia de distribuição. Hoje as pessoas usam  arquivos de mp3, pendrives e players digitais para consumir música, texto, filmes.

A audiência que na teoria da comunicação de massa era passiva, agora é ativa. A escola de Frankfurt por meio de conceitos como a cultura de massa e da indústria cultural desenhou uma sociedade com referências transformadas em mercadorias. Especificamente na área do jornalismo, Max McCombs e Donald Shaw desenvolveram a Teoria do Agendamento, segundo a qual a mídia é exitosa em dizer às pessoas sobre o que pensar. Desenvolvida na década de 70, ela considera a força dos gatekeepers naquela época.

Hoje, o público não se contenta com os assuntos que a mídia sugere que eles pensem. Com o impulso da internet, não há mais limites para definir o que é pauta e o que deve ser ocultado. A divulgação de fatos está ao alcance de um clic.

Para Dominique Wolton, os veículos de massa (rádio e TV) e a internet são formas de comunicação diferentes e complementares. Entusiasta da televisão, o sociólogo francês acredita que ela estimula a democracia e o questionamento da audiência. Já a internet estaria voltada aos serviços individuais de informação, ao lazer.

De fato,  Jenkins mostra em exemplos reais o diálogo entre mídias. O livro Harry Potter virou filme que se transformou em uma comunidade na web, onde fãs escrevem suas próprias histórias.  O game de múltiplos jogadores Alphaville, onde uma sociedade paralela foi constituída, suscitou um debate sobre as eleições na cidade virtual na NPR, a Rádio Nacional dos EUA.

O que o autor pretende mostrar é que a mídia alternativa diversifica e a mídia de radiodifusão amplifica. Sem a TV, Jornal e Rádio não teríamos comunicação social, mas apenas fragmentos culturais. Convencido? Irritado? Revoltado? Então faça a sua leitura e tire conclusões próprias. Fica a dica.

Serviço
Cultura da Convergência
Autor: Henry Jenkins
Páginas: 428
Preço: R$50

Avatar: novo marco para a hiper-realidade na ficção científica

O que Jean Baudrillard diria sobre Avatar, o filme? Sociólogo francês, ele foi um dos teóricos da hiper-realidade . Para ele não existe uma verdade, mas a representação que a sociedade de consumo faz dela. Foi com seus conceitos que Baudrillard rejeitou o título de inspirador do clássico da ficção científica Matrix. O filme dos irmãos Wachowski chega a inserir o livro Simulações e Simulacros em uma das cenas. Mesmo assim, o sociólogo afirma que Matrix…

”  O fato é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman ShowCidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix ReloadedMatrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu.”

De fato, Matrix reproduz um ambiente irreal, mas ele foi sem dúvida uma marco no cinema mundial, pois retrata um mundo tomado pela tecnologia dos bits e bytes. James Cameron com Avatar aparentemente não teve a intenção de  reproduzir uma hiper-realidade leal ao conceito dos teóricos, mas conseguiu construir uma linha tênue entre o real e a ilusão com o soldado Jake.

A certa altura do filme o personagem entra em conflito sem saber ao certo quem ele realmente é: o Jake soldado ou o Jake avatar.  Difícil analisar essa hiper-realidade visto que o experimento ao qual Jake é submetido é surreal.

Os filmes elogiados por  Baudrillard, Cidade dos Sonhos e Show de Truman, iludem o espectador a pensar que as situações são reais quando não passam de representações da verdade.

Talvez Baudrillard ignorasse Avatar em vida ou talvez o definisse como um não-acontecimento. Ou seja, um filme que é lançado para que se fale nele e se deixe de falar na real destruição do meio ambiente. Algo como a Guerra do Iraque, que um “não-acontecimento” para encobrir o 11 de setembro.