Anedota de um drama real

Ricardo Noblat inicia o livro A Arte de fazer um jornal diário com a anedota transcrita abaixo. Seria engraçado não fosse uma prática autodestrutiva da imprensa. Para ler, refletir e alimentar o debate.

TRAGÉDIA (OU COMÉDIA, SE PREFERIREM) EM UM ÚNICO ATO
Cenário: uma banca de jornal no centro de uma cidade.
Personagens: um jornalista que tenta comprar jornais e revistas e um cidadão de meia idade que lê as manchetes dos jornais expostos na banca.
Cidadão — Eu acho que conheço o senhor… O senhor é jornalista, não é mesmo?
Jornalista — É, eu sou…
Cidadão — Já vi sua fotografia no jornal…
Jornalista — É, ela já saiu algumas vezes…
Cidadão — Posso lhe perguntar uma coisa?
Jornalista — Veja, eu estou meio apressado… Mas pode perguntar, sim.
Cidadão — Por que os jornais se parecem tanto?
Jornalista — Como?
Cidadão — Por que os jornais são tão parecidos? Por que tratam quase sempre dos mesmos assuntos?
Jornalista — Porque notícias importantes interessam a todos eles. E são publicadas por todos.
Cidadão — E quem decide que uma notícia é importante?
Jornalista — Ora, nós sabemos quando estamos diante de uma notícia importante.
Cidadão — Então são os jornalistas que decidem quando uma notícia é importante?
Jornalista— Bem, digamos que seja…
Cidadão — E se os jornais se parecem tanto é porque os jornalistas pensam da mesma maneira?
Jornalista — Mais ou menos…
Cidadão — Quem compra jornal pensa como a maioria dos jornalistas?
Jornalista — Acho que não. Há pesquisas nos Estados Unidos que provam que não. Mas se compra é porque reconhece que os jornalistas sabem em geral escolher bem o que publicam.
Cidadão — Então os jornais vendem cada vez mais?
Jornalista — Não, a maioria dos jornais no mundo vende cada vez menos.

(O cidadão olha o jornalista com ar de espanto e se cala por alguns segundos. Quando vê que o jornalista faz menção de ir embora, retoma as perguntas.)

Cidadão — Por que os jornais têm tantas páginas?

Jornalista — Porque têm muitas notícias e anúncios.
Cidadão — E as pessoas têm tempo para ler tanta coisa?
Jornalista — Não. Cada vez elas têm menos tempo.
Cidadão — E tem aumentado o volume de anúncios nos jornais?
Jornalista — Pelo contrário.
Cidadão — Então por que os jornais não têm menos páginas?
Jornalista — Não sei… Mas o senhor está começando a me irritar..

(O cidadão parece claramente confuso. O jornalista se empenha em fazer de conta de que está apenas irritado com tantas perguntas.)

Cidadão — Jornal existe para quê?
Jornalista — Para informar as pessoas. Também para instruí-las e diverti-las.
Cidadão — Então tudo o que interessa às pessoas tem no jornal?
Jornalista — Quase tudo. Ou grande parte.
Cidadão — Os jornais publicam muitas notícias sobre política e economia, não é?
Jornalista — Publicam, sim.
Cidadão — Quer dizer que os leitores se interessam muito por elas?
Jornalista — Não, elas despertam cada vez menos interesse. Pelo menos da forma como são escritas ou apresentadas.
Cidadão — E que tipo de notícias desperta mais interesse nos leitores?
Jornalista — Notícias sobre temas que afetam mais diretamente a vida deles. Notícias, por exemplo, sobre saúde, educação, sexo, ciência, políticas públicas…
Cidadão — Mas os jornais não estão cheios delas, não é?
Jornalista — É. Não estão…

(A essa altura, o jornalista e o cidadão estão rodeados por meia dúzia de pessoas que passavam por ali e se interessaram pela conversa.)

Cidadão — Os jovens lêem jornais?
Jornalista — Lêem pouco. E cada vez menos.
Cidadão — Mas o que os jornais fazem para atraí-los?
Jornalista — Não fazem muita coisa.
Cidadão — Se não atraírem leitores jovens, no futuro os jornais não terão mais leitores, estou certo?
Jornalista — Está, sim. É mais ou menos isso.
Cidadão — Então a idéia dos jornalistas é acabar com os jornais…
Jornalista — O senhor me desculpe, mas tenho que ir embora.

(O jornalista sai de cena. O cidadão e as demais pessoas ficam por ali comentando baixinho o que ouviram. A cortina baixa.)

NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer um jornal diário. São Paulo: Contexto, 2002.

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