Inovação em TV fora da TV

wainer“Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, a célebre frase do Cinema Novo, movimento de cineastas por narrativas mais vida real na década de 50, nunca esteve tão atual. Há uma nova produção de audiovisual em circulação que grava hoje a história de amanhã. A mistura da linguagem de documentário, a estética da fotografia e a bagagem cultural de bons repórteres resulta em reportagens inovadoras. Pode ser que daqui a 50 anos se chame de Novo Cinejornalismo ou CinemaDoc ou Docdigital ou …, mas certamente será observado como um período de transição e mutação de linguagem audiovisual. O painel Inovação em TV fora da TV no Congresso Brasileiro de Jornalismo Investigativo trouxe aprendizados sobre inovação e boas ideias.

O diretor da TV Folha João Wainer compartilhou a experiência de construção da nova linguagem na redação da Folha de São Paulo. Wainer montou em 2012 uma estrutura de 12 pessoas entre fotógrafos, editores de vídeo e repórteres, uma equipe que não trabalha sozinha. “Que redação de TV tem 400 jornalistas com para alimentar as pautas de vídeo?”, destacou o diretor. Os vídeos da Folha trazem uma particularidade em comum: transferem o protagonismo do repórter para o entrevistado. Esse é o grande diferencial em relação ao padrão de televisão. Não significa que o papel do jornalismo é menos importante, pelo contrário, o jornalismo passa a ter uma perspectiva além da reportagem, abre possibilidade de se enxergar como produtor, roteirista e fotógrafo. O formato off/passagem/sonora traduz com simplicidade e coesão o mundo lá fora no espaço possível da televisão, os 90 segundos de cada história. O vídeo na web abre outra perspectiva de tempo e de narrativa.

– Não há um tempo padrão para vídeo na web. O vídeo terá o tempo da história. Ela precisa estar bem contada em três ou em dez minutos.

O vídeo da cobertura da Copa no dia da eliminação do Brasil, por exemplo, tem quase onze minutos de duração e mais de 70 mil visualizações. O vídeo entitulado  O dia do massacre no Mineiraço assim como o A Copa Vip dos Yellow Blocs caracteriza outro traço marcante nas histórias contadas pelo canal web: a fuga do óbvio. Wainer conta que a decisão de fazer a cobertura de Copa a partir da perspectiva da periferia ou do lado de fora dos estádios foi uma escolha consciente e muito sustentada pela personalidade dele impressa, ou melhor, digitalizada nas publicações do canal.

Outra ação de Wainer foi defender a publicação dos vídeos no canal da TV Folha no YouTube. As reportagens são publicadas no media center da Folha e também no canal do YT. Wainer contou que os vídeos circulam mais, o que facilita o compartilhamento. Também acontece de um conteúdo da Folha ser destaque editorial do próprio YouTube o que faz a visibilidade e a audiência crescerem exponencialmente.

Uma questão que ainda está em aberto é a sustentabilidade financeira da webtv da Folha. O produto perdeu o patrocinador que sustentava a presença das produções de vídeo na TV Cultura e hoje as edições são totalmente voltadas para o público nativo digital. O time de 12 pessoas é bancado pela direção do jornal que aposta no audiovisual como linguagem de vanguarda, uma aposta no futuro e na captação de novos públicos.

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Por que assistir ao documentário Mercado de Notícias do Furtado

Um ano depois das manifestações de junho de 2013 quando o papel da imprensa foi questionado nas ruas, o diretor José Furtado destrincha os tabus da imprensa com a sutileza e a sofisticação de um argumento inteligente. Num roteiro que intercala a narrativa em linguagem ficção e documental, a história trafega pela interpretação teatral de uma peça de 1626 de Ben Jonson e pelos depoimentos de grandes nomes do jornalismo brasileiro. Dilemas seculares da comunicação e da comercialização da notícia são ilustrados por personagens simbólicos como a rainha Pecúnia. A disputa pela pecúnia e os dilemas ético, estruturais e funcionais da profissão constroem o argumento de o Mercado da Notícia. É um documentário de tensões, reflexões, crítica e história para quem consome ou produz jornalismo. O debate sobre o modo de fazer jornalismo:  Todo mundo que te passa uma informação tem um interesse, Leandro Fortes, jornalista A dependência e o vício da relação do jornalista com as fontes está exposta em depoimentos sinceros dos veteranos jornalistas entrevistados. O reconhecimento de que toda a fonte tem um interesse próprio para divulgar uma informação e que essa relação é muitas vezes velada. Ainda que o repórter questione qual o seu interesse em divulgar a informação, é papel do repórter identificar os outros lados interessados. Mas como disse renato Lo Prete da folha, ter interesse não significa ser uma má fonte. O dilema ético da profissão: O jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados, Millor Fernandes Furtado trouxe a frase de Millor para colocar em debate o posicionamento dos veículos de imprensa em relação aos governos e partidos políticos. Os jornalistas refletiram sobre o entendimento do termo “oposição” na frase. Um ouvinte pode entender oposição como relação de antítese com governo da situação, outro como a caracterização de uma postura questionadora e desconfiada sobre os fatos. E a pergunta sem resposta é por que os jornais no Brasil não se posicionam politicamente na área editorial, adotando uma posição mais transparente com o leitor. Os erros e a transparência: Parecendo real, nada é verdade, Ben Jonson O documentário narra como um cartaz de U$ 20 vira notícia de capa de jornais do centro do país. A cópia de uma obra de Pablo Picasso foi tratada como se fosse a original, supondo que uma peça milionário residia em uma sala do INSS em Brasília. Usando a linguagem de narrador participativo, ao estilo Michael Moore, Furtado vai até o museu Guggenheim atrás de uma reprodução do quadro original para saber quanto custa e também volta ao prédio do INSS. A provocação deixa os entrevistado desconcertados: por que os jornalistas não desconfiaram antes de publicar? E, depois se serem alertados da cópia, por que não publicaram a correção? A experimentação transmídia O projeto foi construído para cinema, internet e debates em pequenos fóruns. É o mesmo tema abordado com características peculiares de cada meio. No cinema a montagem linear de quase duas horas sintetiza para o grande público o argumento do autor. Na internet, os públicos segmentados encontram extensões de conteúdos usados na produção como a íntegra das entrevistas com os jornalistas. Também foi criado um repositório de pesquisa bibliográfica onde estão postados textos consultados para a construção do roteiro. “E que as pessoas se deem conta de que o jornalismo depende de jornalistas”, Janio de Freitas. Será? Você concorda com o Janio? O documentário estreia em 7 de agosto nos cinemas. Acesse o site do documentário.