Gomorra: uma grande reportagem

Com uma apuração profunda, o repórter Roberto Saviano descreve em Gomorra detalhes do inferno no qual se transformou a cidade italiana de Nápoles, a partir do movimento do porto napolitano. O livro é um exemplar da literatura de não-ficção. O autor mergulhou na sua cidade natal e gravou com os olhos e o coração o ciclo do “Sistema” da Camorra, a máfia napolitana, um verdadeiro mundo de negócios onde a lei é a da força bruta e armada.

A narrativa desta grande reportagem é uma prova de coragem do autor que chega a beirar um certo idealismo jornalístico. No prefácio do texto, Saviano confessa que vive ameaçado de morte, fortemente protegido pelo Estado italiano.

O autor traduz em palavras o suor, o sangue, o medo, o cheiro do universo que descreve. O olhar do repórter  enxerga em detalhes o porto napolitano, sua importância estratégica para o comércio, os negócios dos tecidos e o papel dos chineses. Em uma conversa com um dos personagens desta história real, Saviano desmascara a alta-costura e mostra quem são os reais talentos que vestem celebridades como Angelina Jolie. O “sistema” nos faz entender por que as grifes pouco se colocam contra os clãs da máfia. Elas se alimentam da mão de obra barata e pagam o preço alto da falsificação. Ao fim e ao cabo, promoviam a marca.

“Os clãs não cometiam um crime que atentasse contra as imagens das grifes. Exploravam seu carisma publicitário e simbólico… Se ninguém mais vestir roupas de grife, se as roupas forem vistas somentes nas modelos das passarelas, o mercado diminuirá lentamente e o prestígio enfraquecerá” Páginas 57 e 58

Na segunda parte do livro, Saviano explora a penetração da máfia na construção civil e mostra o quão cruel era o “sistema” com os seus membros. Neste cenário, a fidelidade absoluta é a única lei, não há espaço para opiniões contrárias, questionamentos ou arrependimentos. A punição também é única: a morte. Dependendo da traição uma morte com ou sem sofrimento, descritas com riquezas de detalhes nas páginas de Gomorra.

O trocadilho do título do livro é explicado no trecho dedicado a Dom Peppino, o religioso que ousou questionar a máfia, não para vencê-la, mas para compreendê-la. “Sua palavra, incapaz do silêncio, foi sua condenação à morte” (página 266). Um amigo do padre no discurso de despedida destacou um conto da Bíblia sobre a cidade destruída por Deus por prática de atos imorais:

” Não vedes que esta terra é Gomorra, não vedes? Quando virdes, todo o seu solo será enxofre, sal e aridez e não haverá mais semente, nem produto, nem erva que nele cresça”

Os últimos capítulos mostram a influência do cinema de Hollywood nas atitudes dos “boss” e dos jovens que almejam crescer, ganhar dinheiro e morrer como homens, assassinados. Inspirações estão em Scarface, O Poderoso Chefão, O Corvo, Kill Bill e Pulp Fiction. Na Camorra de Saviano, a vida imita a arte do poder e da morte.

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