Texto para leitura

Indicação de leitura para a palestra do Pedro Lopes
Escrever é cortar palavras

Armando Nogueira

Meus textos, com as habituais exceções, sempre foram curtos. O leitor de uma maneira geral não tem paciência para artigos longos. Nem este escriba.

O cinema, os gibis e a poesia me ensinaram que escrever é cortar palavras. Se alguém acusar meu estilo de escrever certo por linhas tortas darei-lhe toda razão. É isso mesmo. Uma vez um amigo me falou que meus textos pareciam hai kai. Pode ser.

Mas quem é o autor da frase “escrever é cortar palavras?” Armando Nogueira passou alguns anos certo de que era Carlos Drummond de Andrade. Até que um dia perguntou ao poeta.

Drummond negou. Uma pena. A sentença tinha a cara do poeta de Itabira cuja prosa é um exemplo de concisão.

Otto Lara Resende desconfiava que pudesse ser de um escritor mexicano a idéia da dica preciosa. Eu, por mim, seria capaz de atribuí-la a John Ruskin, notável escritor e crítico inglês do século XIX. Se não o disse, com todas as letras, certamente foi Ruskin quem melhor ilustrou o adágio, num conto antológico. É o caso de um feirante de peixes num porto britânico.

O homem chega à feira e lá encontra seu companheiro, arrumando os peixes num imenso tabuleiro de madeira. Cumprimentam-se. O feirante está contente com o sucesso do seu modesto comércio. Entrou no negócio há poucos meses e já pôde até comprar um quadro-negro para badalar seu produto.

Atrás do balcão, no quadro-negro, está a mensagem, escrita a giz, em letras caprichosas: HOJE, VENDO PEIXE FRESCO.

Pergunta então ao amigo e compadre:

– “Você acrescentaria mais alguma coisa?”

O compadre releu o anúncio. Discreto, elogiou a caligrafia. Como o outro insistisse, resolveu questionar. Perguntou ao feirante:

– Você já notou que todo o dia é sempre hoje? E acrescentou: acho dispensável. Esta palavra está sobrando…

O feirante aceitou a ponderação: apagou o advérbio. O anúncio ficou mais enxuto: VENDO PEIXE FRESCO.

– Se o amigo me permitir _ tornou o visitante _ gostaria de saber se aqui nessa feira existe alguém dando peixe de graça? Que eu saiba, estamos numa feira _ e feira é sinônimo de venda. Acho desnecessário o verbo. Se a banca fosse minha, sinceramente, eu apagaria o verbo.

O anúncio encurtou ainda mais: PEIXE FRESCO.

– Me diga uma coisa: por que apregoar que o peixe é fresco?  O que traz um freguês a uma feira, no cais do porto, é a certeza de que todo peixe, aqui, é fresco.  Não há no mundo uma feira livre que venda peixe congelado…

E lá se foi também o adjetivo. Ficou o anúncio reduzido a uma singela palavra: PEIXE.

Mas, por pouco tempo. O compadre pondera que não deixa de ser menosprezo à inteligência da clientela anunciar, em letras garrafais, que o produto aí exposto é peixe. Afinal está na cara. Até mesmo um cego percebe, pelo cheiro, que o assunto, aqui, é pescado…

O substantivo foi apagado. O anúncio sumiu. O quadro-negro também. O feirante vendeu tudo. Não sobrou nem a sardinha do gato. E ainda aprendeu uma preciosa lição: escrever é cortar palavras.