O excesso do politicamente correto

Nos últimos dias navegou pela web um artigo polêmico de um pesquisador australiano que criticou a forma física de Papai Noel. O médico Nathan Grills, da universidade australiana Monash, escreveu que a imagem do símbolo do Natal promove a obesidade, a condução de veículos sob efeito de álcool e em alta velocidade e, de modo geral, um estilo de vida pouco saudável. Lembro do Papai Noel da minha infância, vestido de vermelho, com cinturão e um saco repleto de presentes. Ele trazia naquela bagagem a realização de sonhos de crianças.

No meu caso, a dura realidade de uma menina com menos de 10 anos de idade que precisa controlar a alimentação era substituída pela magia do Natal. Na última semana do ano, eu estava livre! O personagem que habitava meu imaginário liberava guloseimas e ainda trazia presentes. Quem pagava eram meus pais, soube desde cedo, mas era o Papai Noel quem datava a entrega dos meus agrados de final de ano e a autorizava caso eu tivesse boas notas, não brigasse com meu irmão, arrumasse meu quarto, me alimentasse direito, etc. E Noel sempre me aprovou, com distinção.

A minha viagem virtual à Lapônia era uma ilusão passageira. Em janeiro voltava a cumprir minhas restrições infantis, com alguma sobrecarga. Noel nunca passava sem levar minhas promessas para o ano seguinte. Sempre metas escritas em um papel que continha algo do tipo tirar notas melhores em matemática ou levar mais a sério a minha dieta. E assim passava o ano seguinte sonhando com o próximo dezembro.

Até seria divertido ver a figura generosa chegar de biclicleta, mas as renas exerciam sobre mim um enorme poder de encantamento. Bicicletas são comuns, renas são marca registrada do Natal, como a barriga. Para as crianças a época é de ganhar presentes, mas o que dar em troca quando se tem apenas 7 anos? Por que não encher o gorro vermelho de balas e bolachas e deixar ali para quando o cara descer a chaminé?

Não podemos permitir que os politicamente corretos roubem a magia do Natal. O pesquisador pode até ter suas razões científicas para justificar o artigo, mas ele não deve ter tido uma infância repleta de amor, magia e sonhos. Prefiro um final de ópio do que a tristeza de 365 dias de vida real. Feliz Natal a todos!