Blogosfera = rádio e tv? Só no Congresso brasileiro

Faz dez anos. Foi em 1999 que a blogosfera se popularizou. Eu sei que a mudança cultural é um processo “lento e gradual”, mas deve partir de cima, de educadores, veículos de mídia, de governantes e daqueles que ditam as leis de um país. A esfera pública dos blogs, onde qualquer um pode criar o seu palanque e tratar dos mais diversos assuntos em alguns clics, é ainda incompreendida pela esfera política do nosso país.

O fato mais recente que mostra isso é a discussão da reforma eleitoral. A polêmica está no parecer elaborado por comissões do Senado nesta quarta-feira ao proporem aos sites jornalísticos as mesmas regras previstas pela legislação às emissoras de rádio e televisão brasileiras.

Se esse parecer da reforma eleitoral for mantido, os sites jornalísticos estarão proibidos de emitir opiniões a respeito dos candidatos e terão que dedicar o mesmo espaço em sua programação para todos os candidatos que estão na disputa. Ou seja, acabaram os blogs de política nos veículos de comunicação e está suspensa a possibilidade de um debate online entre os candidatos.

Colunistas políticos terão que publicar receitas de gastronomia nos seus blogs para preencher os espaços, tal qual as páginas de jornais censurados o faziam na ditadura. Além de ser uma concorrência desleal com nosso Anonymus Gourmet, a decisão manda contra uma lógica de liberdade que existe desde a criação da internet.

É sempre bom lembrar que o ambiente em que a rede mundial foi criada esteve vinculado a um pós-Guerra Fria, período em que os EUA patrocinavam pesquisas tecnológicas e as deixavam correr livre com apenas um objetivo: desenvolver uma forma de manter a comunicação entre campos de guerra A e C, independente da destruição do B.

Mesmo sem ter essa pretensão e nem ao menos conhecer os planos militares do Departamento de Defesa, Cerf, Kahn, Berners-Lee e outros precursores dos nós de rede conseguiram criar ferramentas de comunicação livres que uniam redes locais em fóruns de bate-papo como o UsenetNews. Embora o espírito que os movesse na época tenha sido o individualismo e a liberdade individual, reinante na cultura capitalista.

Pois foi assim que a web nasceu: da liberdade de pesquisa, de descoberta, de opinião, de diálogo. Por isso hoje ela é essa esfera de muitos, inclusive daqueles que vivem do colunismo e bloguismo político. Todas as tentativas de privatizar ou controlar a internet falharam.

Além de remar contra as ondas da web, nossos políticos esquecem que sites jornalísticos não são concessões públicas como rádio e TV e representam ilhas no mar da internet. Ou seja, desconhecem que um vídeo ou texto opinativo, vetado no blog de um jornal, será publicado livremente e sem possibilidade de controle central em qualquer ferramenta livre. Afinal, para navegar neste oceano não precisa nem saber nadar, basta clicar.

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