Um crime aos olhos da imprensa de 1938

crime_restaurantechinesCarnaval de 1938 em São Paulo foi ofuscado por uma chacina: o crime do restaurante chinês. Na terça-feira gorda, “Ho-Fung e Maria se despediram dos amigos e entraram em sua casa, de onde não sairiam vivos”.  Foram assassinados também mais dois funcionários que dormiam sobre as mesas.

O fato foi o fio de meada para o escritor Boris Fausto construir uma micro-história que perpassa questões sociais relevantes como o Carnaval, a Copa do Mundo, o agendamento da mídia e a cobertura de grandes crimes__ episódios que se destacam pela exuberância sangrenta, por envolver paixões amorosas, pela importância dos protagonistas, ou por tudo isso junto.

A diferença é que uma chacina em 1938 tinha repercussão maior que em 2008, considerando a banalização de crimes na sociedade atual. “Duram pouco nas imagens da televisão, nas páginas dos jornais, em uma ou outra sessão do júri”.

Naquela época era preciso um novo grande acontecimento para ofuscar o que estava em pauta. O crime começou a perder visibilidade em abril para assuntos internacionais e em junho de 38 fora totalmente  substituído pela Copa do Mundo da França.

Essas ondas da cobertura jornalística, destacada por Fausto, foram bastante estudadas por McCombs e Cohen. O último chegou a formular uma frase clássica da teoria do agendamento ” A mídia pode não ter êxito em dizer aos leitores o que pensar, mas é espantosamente eficiente em dizer aos leitores sobre o que pensar”.

O capítulo dedicado à Copa de 38 é repleto de detalhes históricos impagáveis. Em uma geração sem internet, sem televisão, o jornal local cumpria seu papel de difusor de informações com criatividade. “A Gazeta lançava um som estridente do ponto mais alto do prédio do jornal a cada gol brasileiro”, quando o gol era do adversário o som saia abafado. E essa era a forma por meio da qual muitos trabalhadores ficavam sabendo do placar da Copa.

A nossa seleção não ganha, mas volta com o rótulo de “bravura” e “heroismo”. Um time que jogou contra tudo e contra todos, enfrentando o preconceito de juízes europeus e expulsões injustas. O papel vitimizado da Seleção era o reflexo do pensamento da sociedade.

Esse traço da cultura social voltaria à discussão quando do julgamento por júri popular do homem negro acusado de ser o autor da chacina do restaurantes chinês. O livro é sobre um crime e seu julgamento, mas Fausto transforma ele em uma obra sociológica ao abordar assuntos que fascinam os brasileiros: carnaval, futebol e preconceito.

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