Jornalismo científico e nossos preconceitos

Responsabilidade deve ser a palavra de ordem na produção jornalística online. Ética também é imprescindível.  Não podemos admitir novos Jayson Blairs, jornalista do The New York Times demitido por ter fraudado reportagens em 2003_ desmascarado pelos próprios colegas de redação.

Má-fé à parte, às vezes, somos tomados pela velocidade da notícia e publicamos textos sem refletir ou questionar. O bom jornalista sempre desconfia. Nesta semana, no caso do acidente de avião no Oceano Índico, todos os sites do mundo publicaram que uma criança de cinco anos havia sobrevivido à queda. Horas depois a criança era uma jovem de 14 anos.

Confesso que, às vezes, me sinto abduzida pela espiral da notícia online. Sim, a publicação foi precipitada, mas como frear quando todas as agências de notícia e sites nacionais e internacionais dão a informação como certa?

Na notícia local, pelo menos, é possível conduzir a produção de conteúdos com rédeas curtas e ganhar a confiança do leitor. É local e, por isso, o controle de fontes credíveis é factível.

As fontes fazem toda a diferença em uma matéria. Na minha tese de mestrado, eu classifico as vozes jornalísticas em anônimos, notáveis, desconhecidos e famosos.  No mundo ideal, os jornalistas deveriam ouvir sempre notáveis, aquelas pessoas que possuem conhecimento profundo sobre determinando assunto. O problema é que nem todo cientista é notável e a maioria dos jornalistas não conhece metodologia científica.

Toda essa conversa é para introduzir um caso que aconteceu na imprensa da Grã-Bretanha, no jornal Telegraph, versão online. Um repórter entrevistou a autora de uma pesquisa sobre comportamento e sexualidade da Universidade de Leicester e produziu a seguinte matéria: “Mulheres que se vestem de forma provocativa são mais propensas a serem estupradas, dizem cientistas“.

O repórter deve ter pensado em audiência (sim, nós jornalistas gostamos de ser autores de notícias mais lidas) ou deve ter deixado transparecer um preconceito (é a opinião do repórter e por isso ele decidiu destacar o que ele já acreditava e agora a ciência confirma). É caro ao jornalista se despir de todas as crenças de sua formação pessoal. O resultado é que a pesquisadora Sophia Shaw se ofendeu com a reportagem e pediu para a tirar do ar. O Telegraph não o fez, mas a questão retumbou em blogs europeus como o badscience.net.

O repórter Richard Alleyne não inventou como Jayson Blair, mas recortou e aumentou. A notícia deve ter estrelado entre as mais lidas do dia 23 de junho porque legitimou um preconceito da sociedade contra mulheres. Outros efeitos sociais que uma notícia desta pode ter, eu não me sinto capaz de analisar, mas se fosse editora deste repórter, o título seria outro.

A responsabilidade é uma questão de formação e ética. Ou o jornalista possui ou a  sociedade pode pagar bem caro por isso.

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